AS CORUJAS
As corujas são aves muito espertas e atentas à sua volta.
| 26/09/2009 - TEATRO | |
| Dramaturgo defende ELT em Sto.André | |
| Por: Liora Mindrisz (liora@abcdmaior.com.br) |
Luis Alberto de Abreu recorda tempos áureos da Escola Livre de Teatro, faz críticas e avalia atual crise O dramaturgo bernardense Luis Alberto de Abreu ajudou a construir e difundir a Escola Livre de Teatro de Santo André. Após três anos afastado, Abreu voltou para defender o projeto pedagógico original: um processo democrático e colaborativo de ensino. Abreu é autor de mais de 40 peças e roteiros. Nos palcos, ficou conhecido com as peças “Foi Bom, Meu Bem?”, de 1980, “Cala Boca já Morreu”, de 1981, e “Bella Ciao”, em 1982. Nas telonas, foi co-autor com a diretora Eliane Caffé dos roteiros de “Kenoma”, em 1998, e “Os Narradores de Javé”, de 2004. Já na TV, é responsável pelo roteiro de duas minisséries da TV Globo: “Hoje é Dia de Maria” (2005) e “A Pedra do Reino” (2006). Abreu hoje é morador de Ribeirão Pires. ABCD MAIOR - Qual foi a sua experiência na Escola Livre? LUIS ALBERTO DE ABREU - Entrei na ELT no semestre seguinte da sua fundação. Trabalhei aqui durante 15 anos. No meio disso, fiquei afastado por quatro anos, quando a escola foi fechada pelo ex-prefeito Newton Brandão. Voltei para a reconstrução dela na segunda gestão do prefeito Celso Daniel. ABCD MAIOR - O que lecionou? ABREU - Fundamentalmente dramaturgia, mas que ia desde dramaturgia para teatro até o projeto inédito de dramaturgia radiofônica. Além disso, eventualmente assessorava grupos de teatro, montagens; fazia preparação corporal, isso tudo dentro da escola, como mestre. ABCD MAIOR - Você vê alguma relação da situação no governo do Brandão com a atual? ABREU - Não, o Brandão foi uma desmobilização, uma ausência total de diálogo, um desmantelamento da escola. Foi proposital, eles não gostavam e não queriam a escola. Desta vez, até onde eu entendo, há um interesse em manter os equipamentos em funcionamento. ABCD MAIOR – O sr. acha que os equipamentos serão mantidos com a ideia pedagógica original? ABREU - Quando muda o partido, é esperado que mude também a orientação, a política cultural, se é que ela existe. Nesse momento, o que eu posso dizer é que a instituição, mais do que o equipamento, tem de permanecer. Permanecer discutindo, permanecer produzindo, permanecer viva. Gostaria de entender quais os planos que a Secretaria tem para a ELT, que é um tipo de escola que deu bons frutos e pode continuar dando. ABCD MAIOR - E se a escola perder essa característica? ABREU - Se ela perder essa característica de pensamento, de envolvimento, se torna uma escola comum, como qualquer outra, assim como as milhares que existem espalhadas pelo Brasil. São escolas que não produzem, que não pensam, que não trazem nada de novo. ABCD MAIOR - Você acredita que qualquer partido pode manter esta instituição? ABREU - Houve uma época que eu pensei que um ou outro partido poderiam ter uma sensibilidade maior às questões culturais, coisas que os partidos mais tradicionais nunca tinham tido. Mas o que está havendo é que atualmente, principalmente na área de cultura, não é o programa de governo do partido que determina as políticas culturais, é a sensibilidade de quem está sentado temporariamente na cadeira da Secretaria de Cultura. Porque partido algum está preocupado com a cultura, esta é a razão pela qual não estou preocupado com partido nenhum. ABCD MAIOR - Qual o diferencial na formação desses artistas que passam por essa escola? ABREU - Aqui, além da formação de ator, tem uma série de cursos livres que levam à reflexão mais profunda, tanto da realidade artística como da realidade social e da inserção do artista no meio disso. As escolas são muito mais formadoras de mão de obra barata para o mercado de produção cultural. Nem questiono a qualidade destas outras escolas, mas ninguém sobrevive só sendo ator, tem de saber pensar também. Ator não é uma coisa funcional, que aprende umas técnicas e sai por aí fazendo. Formamos atores criadores, atores artistas, que consigam desde resolver questões de dramaturgia, de pensamento, que possa estender um olhar para o problema social, para o problema cultural, e daí extrair sua arte. ABCD MAIOR - Na época da construção da ELT, qual sua recordação? ABREU - As recordações são, primeiro, pelo pioneirismo. Depois, a disponibilidade para o trabalho. Lembro-me que a coordenadora, Maria Thaís (Lima Santo), para inaugurar a parte do circo no Parque Jaçatuba, pegou o carrinho de areia e pedra e colocou os funcionários dela para fazer trabalho de pedreiro. Outra grata lembrança, só que anos depois, foi uma época neste prédio que não se tinha lugar para transitar porque nas salas, escadas e corredores havia atores ensaiando. Neste ano, a ELT montou 17 espetáculos. ABCD MAIOR - E recordação do que as pessoas falavam e esperavam deste projeto novo? ABREU - Tínhamos muita vontade. No primeiro ano, a ELT tinha 12 alunos e ninguém botava muita fé. No último ano, antes do Brandão, havia 300 alunos e três grandes produções, que inclusive foram para São Paulo. O envolvimento, a palpitação na cidade era muito grandes. ABCD MAIOR - Trabalhou em outra escola com esse programa pedagógico? ABREU - O único, que estou há dez anos, é no galpão Cine Horto, em Belo Horizonte. Não é uma escola tão formal como esta, mas é um centro de experimentação e foi criado a partir da experiência da ELT. Outros se interessaram com processo colaborativo da escola. Diadema nos consultou, Guarulhos também queria criar uma escola deste tipo. As pessoas têm interesse em saber como é a questão pedagógica e normalmente sou consultado a esse respeito. Porque a ELT é uma referência, atualmente, em didática e pedagogia de artes cênicas. Entenda a crise na Escola Livre de Teatro de Santo André - A crise entre comunidade artística da Escola Livre de Teatro e administração pública de Santo André começou após a demissão do coordenador pedagógico da ELT, Edgar Castro, na terça-feira (08/09), escolhido democraticamente por membros da instituição. Na sexta-feira (11/09), mestres e aprendizes organizaram um ato público para a entrega de uma carta que reivindica a volta do coordenador e o afastamento da coordenadora administrativa, Eliana Gonçalves, indicada pela Secretaria de Cultura, alegando que ela impede o processo democrático da Escola. O ato contou com a presença de atores como Maria Alice Vergueiro, Antonio Petrin e Leona Cavalli. Na quinta-feira (17/09), após visita na Câmara Municipal, vereadores criaram Comissão de Assuntos Relevantes para debater os impasses com os integrantes da ELT. Nesta semana, aconteceu de segunda (21/09) a sexta (25/09), a Mostra Ocupação “ELT em Alerta”,com a participação de cerca de 30 grupos e artistas da Região e outros centros, que se apresentaram no Teatro Conchita de Moraes (sede da Escola) em prol da preservação do projeto. Uma das atividades contou com uma mesa de debate sobre o projeto pedagógico da ELT com a participação de dois ex-mestres e pioneiros na construção da Escola, o diretor de teatro Chiquinho Medeiros e o dramaturgo Luís Alberto Abreu. Durante estas mais de duas semanas, diversos artistas nacionais divulgaram apoio à ELT, como o jornalista Marcelo Tas e o grupo musical Teatro Mágico. A comunidade publicou em um site as notas recebidas, que até agora totalizam 59. O apoio pode ser conferido no http://apoioelt.blogspot.com. A assessoria de imprensa da Prefeitura disse ao ABCD MAIOR que não falará sobre o caso da ELT. |
ESCOLA LIVRE DE TEATRO DE SANTO ANDRÉ
Acho que eu li num livro ou vi na televisão que não é que a gente engorde, a gente acumula gordura. Melhor entendido: o corpo tem nele a memória do terror das noites das cavernas quando a sobrevivência roncava no estômago, então armazena gordura por ansiedade e medo de outras eras. A vida está em perigo e a fome que não cessa, é o seu sinal mais aparente.
Tenho a mesma sensação de medo desconhecido nessas horas tranqüilas, hospedado em um hotel cinco estrelas, numa situação fruto da gentileza dos deuses do patrocínio para com os atores. Algum perigo me ronda, e aumenta quando vejo esses miseráveis que do nada aparecem na porta do hotel cinco estrelas, com sua miséria repugnante, sacos plásticos pretos, barbudos, babados e sujos, que os seguranças com a sua brutalidade autorizada, espantam, chispando pra longe da vista. Não tem uma vez que não me corra na alma o arrepio da possibilidade dos seguranças se virarem contra mim, me descobrirem aqui e me mandarem pra fora escorraçado como um penetra sem lenço e sem documento.
É o medo ancestral, sinal da fome de sentimentos de paz, compreensão, felicidade, alegria, porque os Impérios de Terror e Miséria estão a postos para o ataque. Como acontece nos jardins da ESCOLA LIVRE DE TEATRO DE SANTO ANDRÉ.
A escola é um projeto de grande felicidade artística nacional e internacional, que está para completar vinte anos e no momento ameaçado de ser desmanchado.
Já dava pra imaginar que viriam mudanças depois da última eleição. A política dos que estão ou não no poder, que é a que tem regido a vida cívica brasileira, faz mais estragos na continuidade das boas coisas que a razão desconhece ou suportaria.
E é esse o estrago que se anuncia no ato de demitirem sumariamente o Edgar Castro, coordenador eleito em voto livre por todos os que fazem a Escola Livre, professores, alunos e funcionários, continuidade de um processo que joga fora, que despreza, tudo o que foi construído para que a escola seja o que ela é hoje. O Edgar foi mandado embora e proibido de entrar na escola. Isso mesmo: proibido de entrar na escola.
Proibido! Essa palavra ferve o meu sangue e dá nó na minha garganta. Socorro Lucia Gayotto! Minha querida mãe de santo, bruxa da voz como dizia o Zé Celso. Socorro! Perdi a eloqüência, não tenho a língua molhada pela fala sagrada que age, que faz nascer a ação no teatro e que deseja mudar o mundo. Estou mudo sem saber como por pra fora essa fala que afeta, com a ação que você tanto trabalha.
Esses ataques de soberba aviltante são herdeiros dos momentos mais ferozes da ditadura militar, que através do terror da tortura, marcaram a ferro e brasa a nossa memória cívica. Se manifestam e amedrontam porque são portadores daquela brutalidade covarde que espantou para os lugares proibidos da memória um dos momentos mais potentes da vida brasileira, e estão no cerne de tudo que vivemos hoje.
E é mais uma vez o teatro, que nesta aparentemente desprezível atitude da administração de uma das mais importantes cidades do Brasil, que está sendo escorraçado das portas da cidade.
Não sei exatamente porque mas me veio à memória que outro dia lá no Conchita de Morais, o teatro da escola, numa montagem do último ano, Woyzek estava matando a facadas o seu amor, empurrado pelos que se dizem guardiões da decência e da honestidade.
O teatro é mais excitante que o crime. Viva o amor.
No “site” da Prefeitura Municipal de Santo André a Escola Livre de Teatro-ELT está apresentada da seguinte forma:
“A Escola Livre de Teatro (ELT) é um espaço de formação e pesquisa na área teatral mantido pela Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer há 17 anos. Pela Escola passaram e passam cidadãos e cidadãs interessados na vivência do teatro em suas diversas vertentes: atuação, direção, dramaturgia, entre outras.
O projeto artístico e pedagógico da ELT é considerado, hoje, referência nacional em formação cênica. Tem como base a vivência de processos criativos compartilhados e a relação mestre/aprendiz, como no aprendizado de ofício. Ou seja: o corpo docente é formado por artistas importantes no cenário teatral, que trazem para a Escola a sua experiência como criadores.
Além de um trabalho amplo de formação de jovens artistas, o que se vê no cotidiano da ELT é um laboratório de experimentações em que o aprendizado do teatro é encarado em seus fundamentos estéticos, éticos e políticos.”
Como moradora do município e “devoradora” de arte e cultura, acompanho de perto tudo que é realizado e idealizado pelos profissionais e pelos estudantes que passam pela ELT.
Foi com grande surpresa que tomei conhecimento dos últimos acontecimentos ligados à ELT!!!! Não me pareceu atitude de pessoas preocupadas, literalmente, com arte e cultura!!!!
Quero aqui deixar bem claro que não sou filiada ou simpatizante de qualquer partido político; sou uma munícipe atenta e preocupada com o que acontece na sua cidade.
Lamento que o Secretário de Comunicação, Sr. Alexssander Soares, que acredito tenha sido a pessoa que redigiu o texto publicado no Diário do Grande ABC no último dia 09, tenha uma visão tão “minimalista” da função de um órgão de imprensa e que tenha ainda questionado a seriedade do jornal. Com certeza o senhor Secretário de Comunicação não deve ter vivido neste País nas décadas de 60 a 80.....se viveu, nem tomou conhecimento e nem procurou informar-se a respeito!!!
Se não são os órgão de imprensa a darem espaço para que a população possa ter divulgado suas manifestações/reivindicações.....quem dará????
Não li e não sei quem escreveu a “tal crítica”.........mas acredito que algum fundamento deva ter.
Ainda no texto publicado no Diário do Grande ABC, que, infelizmente tambem foi assinado pelo senhor, menciona que a Sra. Eliana Gonçalves, atual Coordenadora da ELT, é uma profissional com trajetória de docência artística de mais de vinte anos, com comprometimento com o teatro e com a cidade de Santo André.
Senhor Secretário, queira desculpar minha ignorância, mas nunca ouvi ou vi o nome da Sra. Eliana ligado/vinculado a qualquer atividade cultural do município....e olha que sou uma pessoa muito interessada no assunto e procuro sempre me informar quem são as pessoas ligadas a “fazer acontecer” essa ou aquela atividade cultural.
Até para que eu possa me redimir, se for o caso, gostaria, se possível, que fosse divulgado os feitos da Sra. Eliana ligados à arte e à cultura, antes e depois de ter assumido a Coordenação da ELT.
Seria interessante ainda que a população (munícipe ou interessados nas realizações da ELT) fosse informada sobre as pontes que estão sendo construídas com novos agentes culturais, objetivando aumentar a oferta de vagas. Quem são esses “agentes culturais”?
Espero que amanhã, dia 11/09/2009, ao participar da manifestação que está marcada para as 14h, eu, uma jovem senhora com 51 anos de idade, tenha a oportunidade de vê-lo recebendo os manifestantes!!! COM DEMOCRACIA!!!
Atenciosamente,
Márcia A. Martins
Vereador Antonio Leite
